A COROA E A ESTRELA – Sergio Paulo Rouanet

Entre as vítimas dos atentados de 11 de setembro estão certas teorias que em geral anunciavam o fim de alguma coisa: da história, do Estado nacional ou da modernidade. As duas primeiras ruíram com as torres do World Trade Center. A história fez questão de mostrar que estava viva e se apresentou para isso sob seu aspecto mais cruel, aquele que levou Voltaire a dizer que a história é “a síntese dos crimes e desgraças do gênero humano”. Da mesma forma, o hiperpatriotismo com que os americanos reagiram à crise deixou claro que o fim do Estado nacional ainda não estava à vista. Resta a teoria do fim da modernidade. Seria ela tão ilusória quanto as outras?

A resposta exige uma visão mais diferenciada do que entendemos por modernidade. Ela inclui, por um lado, um vetor utilitário, “weberiano”, que tem como foco um aumento de eficácia nos diferentes subsistemas sociais (economia, política e cultura). É o que podemos chamar de modernidade funcional. E inclui, por outro lado, um vetor iluminista, voltado para o aumento de autonomia individual em cada uma dessas esferas.

Podemos chamá-la de modernidade emancipatória. As duas faces da modernidade estão entre si numa relação de conflito, porque são regidas por duas lógicas opostas. Mas a relação é também complementar, porque sem a modernidade funcional a emancipatória careceria de meios (as condições materiais para sua realização) e sem a modernidade emancipatória a funcional seria desprovida de fins (objetivos estabelecidos consensualmente para a concretização do ideal da autonomia).

Que dizer, agora, da tese do fim da modernidade? Como um todo a tese é falsa. Mas os recentes ataques terroristas, bem como suas sequelas, fazem-nos suspeitar de que ela estaria se tornando parcialmente verdadeira. A modernidade funcional está viva e robusta. Mas a modernidade emancipatória está na UTI.

No sentido funcional, com efeito, os protagonistas da crise estão se comportando segundo os padrões mais exigentes da modernidade. Isso é válido, naturalmente, para os Estados Unidos mas também para o campo dos terroristas.

Eles conhecem todos os segredos do capitalismo financeiro, porque seus líderes jogam na Bolsa e têm contas em todos os países desenvolvidos. Estão inteiramente familiarizados com a mais avançada tecnologia. Dominam como ninguém os recursos da mídia. Têm em seus quadros técnicos formados no MIT e especialistas em análise de sistemas. Osama bin Laden é engenheiro civil. Um dos sequestradores apresentou uma tese sobre planejamento urbano na cidade de Alepo.

Se passarmos, porém, para a outra modernidade, a que tem como eixo o conceito de autonomia, sentimo-nos tentados a dar razão aos teóricos do fim da modernidade.

Os Estados Unidos estão aparentemente dando as costas a todas as articulações do projeto de autonomia que presidiu à formação da nação americana. O ideal de autonomia econômica, que mesmo antes da crise não chegava a entusiasmar um governo republicano contrário a toda política redistributiva, não tem grande prioridade hoje, quando o esforço de guerra está mobilizando todas as atenções. A autonomia política está sendo ameaçada por um pacote sem precedentes de medidas restritivas, que põem em risco as conquistas mais decisivas da democracia americana.

A autonomia cultural, baseada na idéia do Estado leigo, está sendo erodida por um neofundamentalismo digno dos puritanos do “Mayflower”.

É quase supérfluo dizer que o outro campo se caracteriza por um desprezo maior ainda pelos princípios da modernidade emancipatória. A autonomia econômica dos povos islâmicos, alguns dos quais, como os afegãos, estão entre os mais pobres do mundo, não é exatamente uma tarefa urgente para os bilionários que usam para financiar a guerra santa a fortuna adquirida por meio de negócios com o Ocidente. Os terroristas são agentes de uma ideologia religiosa de extrema direita, que apaga as fronteiras de classe e nesse sentido funciona como ópio do povo, na mais pura acepção marxista. É uma simples coincidência, mas que não deixa de ter seu simbolismo, que seja justamente o ópio o principal artigo de exportação dos talebans.

A autonomia política é a menor das preocupações dos grupos que operam através de uma tirania teocrática, exercida sobre adeptos fanatizados. Seu apreço pela autonomia cultural se manifesta na destruição de tesouros artísticos do passado e na exclusão das mulheres do mundo do trabalho e da educação. Nunca houve repúdio mais brutal à conquista decisiva da modernidade cultural, o secularismo. Os emires, que cultivavam as letras e as artes na Espanha mourisca, ou o sultão Saladino, que na época das Cruzadas dava lições de civilização aos bárbaros que vinham da Europa, teriam corado de vergonha com o obscurantismo dos que ousam hoje em dia falar em nome do Profeta.

A barbárie tecnificada

Diante disso, o que fazer? Aceitar as tendências atuais, reduzindo a modernidade apenas a seu vetor funcional e considerar irreversível a perda do vetor emancipatório? Seria a conjunção da funcionalidade com a heteronomia, uma “high-tech” de guerra das estrelas associada ao fundamentalismo. Teríamos uma barbárie tecnificada, soldados de Deus aniquilando-se mutuamente com armas nucleares, entre foguetes intercontinentais e cânticos religiosos. Seriam os mulás abençoando aviões-bomba em nome de Alá, e os televangelistas americanos inaugurando porta-aviões atômicos ao som de “God bless America” ou “Onward, Christian Soldiers”.

Repudiar, de todo, a modernidade, anulando, também, as conquistas da modernidade funcional? Nesse caso teríamos uma bela harmonia pré-moderna, uma totalidade não-dividida, regida por dois arcaísmos sincrônicos, o tecnológico e o ideológico, corporificando-se em duas utopias retrospectivas, a utopia heróica de guerreiros de armadura partindo para liberar o Santo Sepulcro aos gritos de “Deus o quer” e a utopia bucólica de camponeses cultivando a terra com um arado e rezando o ângelus ao pôr-do-sol.

Não, é preciso recompor a modernidade truncada, revitalizando a dimensão da autonomia. A modernidade é bifronte, ao mesmo tempo funcional e emancipatória, e assim deve permanecer. Sua divindade tutelar é Jânus, com seus dois rostos, e não Polifemo, com seu olho único. Como chegar a esse resultado? “Camiñero, no hay camiño”, escreveu Antonio Machado, “el camiño se hace marchando”. Mas construir seu próprio caminho não significa ausência de meta.

Os meios são incertos, mas o fim é claro. Caminhar às cegas é próprio do fanático, aquele andarilho que, segundo Santayana, acelera o passo no momento em que perde de vista o objetivo. O fim é a autonomia, integral e para todos. Quanto aos meios, só uma coisa é certa: nada será alcançado se não vislumbrarmos, no fim da jornada, uma democracia mundial, que dê substância ao ideal iluminista da autonomia.

Isso significa que o destino de países como o Brasil será decidido sobretudo por seu povo, e não por fundamentalistas islâmicos ou texanos. E significa que a potência hegemônica não terá o direito de usar Colts 45 (ou seus equivalentes modernos) para implantar na terra a lei e a ordem. O bonapartismo presidencial não pode ser comparado ao imperial, mas, diferenças de estilo e personalidade à parte, os dois Césares têm uma coisa em comum: nenhum recebeu um mandato para refazer o mundo. Foi o próprio Napoleão quem pôs a coroa em sua cabeça, e foi o próprio presidente dos Estados Unidos que se outorgou a estrela de xerife.

Sergio Paulo Rouanet é ensaísta e professor visitante na pós-graduação em sociologia da Universidade de Brasília. É autor de, entre outros, “As Razões do Iluminismo” e “Mal-Estar na Modernidade” (Cia. das Letras). Escreve mensalmente na seção “Brasil 502 d.C.”.