PULSÃO DE MORTE E CRUELDADE – Jacques Derrida

Pulsão de morte e crueldade

por Jacques Derrida

Será que há uma pulsão de morte (“Todestrieb”), ou seja -e Freud as associa regularmente-, uma pulsão cruel de destruição ou de aniquilamento? Ou: será que há também uma crueldade inerente à pulsão de poder ou de domínio soberano (“Bemächtigungstrieb”) para além ou aquém dos princípios, por exemplo dos princípios de prazer ou de realidade?
Minha pergunta será antes, e posteriormente: será que há, para o pensamento, para o pensamento psicanalítico do futuro, um outro além, por assim dizer, um além que se situe para além desses possíveis que são ainda os princípios de prazer e de realidade e as pulsões de morte ou de domínio soberano, que parecem se manifestar sempre que se anuncia a crueldade? Em outras palavras, em palavras de todo outras, pode-se pensar essa coisa aparentemente impossível, ultra-impossível mesmo, a saber, um além da pulsão de morte ou de domínio soberano e, portanto, o além de uma crueldade que não teria nada a ver nem com pulsões nem com princípios?

Mitologia das pulsões
Nem, pois, com todo o resto do discurso freudiano que aí se ordena, com a sua economia, os seus “topoi”, a sua metapsicologia e sobretudo com o que Freud, assim entendemos, chama também a sua “mitologia” das pulsões? Por sinal, ele fala de sua “mitologia” das pulsões logo evocando a hipótese de uma natureza igualmente “mitológica” do saber científico mais grave, mais positivo, a física teórica de Einstein, por exemplo. Quanto a esse além do além, é possível uma resposta terminante? Será que aquilo que chamarei de estados de ânimo da psicanálise hoje não testemunha, nesse sentido, enfim, certa experiência do indeterminado?
É ao nomear o além do além do princípio de prazer, o além da pulsão de morte, o além da pulsão de poder soberano e, portanto, o ultra-impossível, o outro impossível, que gostaria de saudar os estados-gerais da psicanálise. Para quem gostaria de saudar dignamente os estados-gerais da psicanálise, que “salut”, que saudação/ salvação seria essa? Haverá uma saudação/salvação para a psicanálise? Por que demonstrar gratidão aos estados-gerais da psicanálise? E como agradecer aos amigos psicanalistas que tiveram, ao que tudo indica, a iniciativa histórica? Tentarei, depois, discutir minha saudação.
Mas, antes de começar, se é que jamais começarei, devo, afinal de contas, e em vista do tema do impossível que acabo de suspender, fixar minha escolha em dois substantivos comuns. Eles acabam de bater à porta, ou de bater tout court, nós lhes respondemos sem poder por eles responder; são, pois, os substantivos “crueldade” e “soberania”.
Gostaria de privilegiar, no tempo que me foi graciosamente concedido, as duas formas, a meu ver maiores, daquilo que resiste. Ainda hoje e por muito tempo. A crueldade resiste, a soberania resiste. Uma e outra, uma como a outra, elas resistem à psicanálise, sem dúvida, mas como também a psicanálise resiste a elas, no sentido justamente mais equívoco desse termo. Soberania e crueldade, coisas bastante obscuras, resistem distintamente, mas resistem, uma como a outra, tanto no exterior quanto no interior da psicanálise. Entre o interior e o exterior daquilo que se define com um artigo definido, “a” psicanálise, a fronteira suportará toda a carga, em particular as cargas histórica, ética, jurídica ou política e, portanto, o alcance mesmo de nossas questões.
Crueldade, soberania, resistência: estou longe de ter certeza de saber, e nem sequer de que se saiba em geral, o que esses termos querem dizer, apesar de seu uso, afinal de contas, bastante corrente em Freud e na psicanálise em geral. No fundo, de modo não equívoco, o que significam crueldade, soberania, resistência? O que fazemos para que signifiquem? E, sobretudo, como a coisa que se chama psicanálise pode plasmar, e talvez modificar, o sentido dessa questão prévia?
Eis, em suma, a inquietação que, em sinal de reconhecimento, gostaria de partilhar com vocês. Não terei o tempo nem os meios de elaborar como caberia aqui as hipóteses de trabalho que gostaria de lhes submeter. Aceitem, pois, que, ao contrário de meu hábito, e antes mesmo de começar, eu delas trace logo de saída, sem rodeio e sem circunlóquio, sem muitas contorções, a silhueta um pouco espectral. Não me contentarei em me amparar num conceito de resistência que elaborei em outra parte, ao formalizar os usos heterogêneos que dele propõe Freud e ao tentar assim acioná-los para analisar as duas resistências em curso, a resistência à psicanálise, no mundo, e a resistência ao mundo, no interior de uma psicanálise que também resiste a ela própria, que se dobra para se resistir, por assim dizer, para se inibir a ela mesma, de modo quase auto-imunizante.
Ao tentar dar um passo a mais, pergunto-me se, hoje, aqui, agora, o termo e o conceito de resistência ainda permanecem apropriados. Será que eles representam o móbil mais estratégico, mais econômico, para pensar o que não funciona, o que não funciona bem no mundo do sujeito e acerca da psicanálise, contra ela, e assim também o que, aos olhos do mundo, não funciona, não funciona bem no interior da psicanálise, entre ela e ela, por assim dizer? O que não funciona? O que não funciona bem? O que sofre e se queixa? Quem sofre de quê? Qual o queixume da psicanálise? Que livros de condolências ela abre? A serem assinados por quem? O que claudica nos passos prevalecentes de seu discurso, de sua prática, de sua hipotética ou virtual comunidade, de suas inscrições institucionais, de suas relações com o que se chamava antes a sociedade civil e o Estado, na reviravolta de sua sociologia, e de maneira diversa em cada país, na mutação que afeta a figura dos pacientes e dos clínicos, na transformação da demanda, da cena e daquilo que ainda ontem se chamava a “situação analítica”, da qual lembro haver apontado a precariedade e o artificialismo histórico décadas atrás?
O que faz aquele que diz “tal não funciona” e, sobretudo, “tal não funciona bem”, “sofre”, sofre da parte daqueles que fazem do sofrimento, do mais cruel sofrimento, seu assunto? Aquele que diz “tal não funciona” já anuncia uma inquietação reparadora, terapêutica, restauradora ou redentora. Cumpre salvar, cumpre assegurar a salvação: que a psicanálise seja salva, que viva ou sobreviva a psicanálise.
Tal inquietação salutar, sanitária ou imunizante envolve simultaneamente um gesto de guerra: o guerreiro quer curar ou salvar pondo em debandada, precisamente, uma resistência. Não estou certo de que esse propósito de salvamento, esse projeto de saúde e de salvação, essa inquietação de salvação pública, não seja também, em parte, talvez em segredo, o de seus estados-gerais, já grandes, virtualmente à sombra de algum “shadow” Comitê de Salvação Pública. Logo, não estou certo, nessa altura, de ser um dos seus, ainda que, por um lado, sinta orgulho de reivindicá-lo ao partilhar sua inquietude.
Já havia manifestado dúvidas sobre a estrutura homogênea desse conceito múltiplo de resistência (“Widerstand”) em Freud. Hoje farei diferente. O mundo, o processo de mundialização do mundo, tal como se dá, com todas as suas consequências políticas, sociais, econômicas, jurídicas, tecnocientíficas etc., sem dúvida resiste hoje à psicanálise. E o faz segundo formas novas, que sem dúvida vocês estão examinando. Ele resiste de maneira desigual e difícil de analisar. À psicanálise ele opõe, notadamente, além de um modelo de ciência positiva, ou mesmo positivista, cognitivista, fisicalista, psicofarmacológica, empirista, talvez também o academicismo de uma hermenêutica espiritualista, religiosa ou rasteiramente filosófica mesmo, pois tudo isso não se exclui, instituições, conceitos e práticas arcaicas da ética, do jurídico e do político que parecem ainda dominados por uma certa lógica, isto é, por uma certa metafísica da soberania (autonomia e onipotência do sujeito individual e coletivo, liberdade, vontade egológica, intencionalidade consciente, se quiserem, o ego, o ideal do ego e o superego etc.).

Assassínio cruel
Essa soberania, o primeiro gesto da psicanálise terá sido explicá-la, para dar conta de sua inexorabilidade, projetando desconstruir-lhe a genealogia que também faz as vezes de assassínio cruel. Quanto às ciências físicas, neurológicas ou genéticas, Freud foi o primeiro a não rejeitá-las, mas a esperar bastante delas, contanto que se saiba, justamente, esperar, e ainda articular sem confundir, sem homogeneizar precipitadamente, sem esmagar os procedimentos, as estruturas e as leis, respeitando os casos, os prazos e, ousaria dizer, o diferido da diferença. De fato, no mundo como nas comunidades analíticas, esses modelos positivistas ou espiritualistas, esses axiomas metafísicos da ética, do direito e da política ainda não foram abordados e muito menos “desconstruídos” pela revolução psicanalítica. Aí resistirão eles por muito tempo; eles são feitos, na verdade, para aí resistirem. E pode-se chamar isso, com efeito, uma “resistência” fundamental.
Sem dúvida, diante dessa resistência, a psicanálise, nas formas estatutárias de sua comunidade, na suprema autoridade de seu discurso, nas suas instituições mais visíveis, resiste duplamente àquilo que permanece arcaico nessa mundialização. Embora não a queira, ela não a combate, ela não a analisa. Isso porque essa resistência é também uma resistência a si. Há um mal, em todo caso uma função auto-imunizante na psicanálise como em tudo o mais, uma recusa de si, uma resistência a si, a seu próprio principado, a seu próprio princípio de proteção.
A psicanálise, a meu ver, ainda não empreendeu e, menos ainda, portanto, logrou pensar, penetrar e alterar os axiomas do ético, do jurídico e do político, particularmente nesses pontos sísmicos em que freme o fantasma da soberania e em que se produzem os mais traumáticos, digamos ainda confusamente, os mais cruéis acontecimentos geopolíticos desse tempo.

 

Jacques Derrida é filósofo francês e diretor da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais (Paris), autor de “Espectros de Marx” (Relume-Dumará) e “Gramatologia” (Perspectiva), entre outros. O texto acima reproduz trecho de palestra proferida no congresso “Estados-Gerais da Psicanálise”, ocorrido em Paris entre 8 e 11 de julho deste ano, e publicado pelo jornal francês “Le Monde”.
Tradução de José Marcos Macedo.