CINCO PRESSUPOSTOS CONTRATERRORISTAS – nelmon j. silva jr.

 

CINCO PRESSUPOSTOS CONTRATERRORISTAS

FIVE ASSUMPTIONS COUNTERTERRORISTS

 

SILVA JR., Nelmon J.1

 

RESUMO: Ensaio sobre pressupostos contraterroristas.

PALAVRAS-CHAVE: Reconhecimento. Desradicalizar. Decapitar. Derrota. Gerenciamento.

 

ABSTRACT: Essay on counterterrorists assumptions.

KEYWORDS:Recognition. Deradicalize. Decapitate. Loss. Management.

 

 

 

Quando todas as armas forem propriedade do governo e dos bandidos, estes decidirão de quem serão as outras propriedades. FRANKLIN. Benjamin, Domínio Público.

 

 

Cinco hipóteses (pressupostos) sobre contraterrorismo são universal e academicamente indiscutivelmente aceitas, sendo as seguintes:

  • pode-se reconhecer um terrorista?

  • é possível desradicalizar (grupos) terroristas?

  • a decapitação de grupos terroristas funciona?

  • o terrorismo pode ser derrotado?

  • o terrorismo pode ser melhor gerenciado?

 

Aparentemente seria impossível encontrarmos um terrorista por simples características físicas ou de sua personalidade; porém o processo ou ferramenta para fazê-lo (chamado de perfil), sendo o mais utilizado o perfil de personalidade comportamental, ou seja, estudam-se as características individuais de uma pessoa, levando-se em conta o foco do seu comportamento, em determinada sociedade.

 

Então, no estudo de perfis de personalidade comportamental, estabelecemos um conjunto de fatores psicológicos, sócio-econômicos, físicos, comportamentais, além de atributos étnicos, com base em experiências anteriores. Primeiro, você olha para a população como um todo, e detectando um grupo que tem um grande número de indicadores de estar ligado à ação terrorista, iniciam-se estratégias contraterroristas com base na pesquisa de dados cruzados, aliadas à experiência passada com outros grupos ou indivíduos terroristas.

 

Obviamente, que a detecção de um grupo pelo perfil físico é discriminatória, porém também o é eficaz, tanto que em grupos terroristas jihadistas (ou terroristas islâmicos), por exemplo, eles têm se casado com mulheres caucasianas ou brancas, não islâmicas; ou simplesmente tentam mudar suas aparências, através do corte de cabelo, roupas, e do próprio jeito, a fim de não parecerem “tão” suspeitos.

 

Um caso histórico é a do conhecido Mad Bomber, que em novembro de 1940, na cidade de Nova York, depositou uma bomba caseira, num edifício comercial, sendo essa sucedida de mais de 30 (trinta) outras pequenas bombas, entre os anos de 1940 e 1956. Assim, o Mad Bomber escapou das autoridades por 16 (dezesseis) anos, até que em 1956, os investigadores buscaram o auxílio profissional de um psiquiatra chamado James Brussell, que elaborou um perfil do o suspeito, culminando na prisão de George Metesky (janeiro de 1957), o qual confessou imediatamente os crimes praticados por ele, o Mad Bomber.

 

Hoje além do estudo do perfil dos terroristas contamos com o rastreio de dados cruzados, que desde o final dos anos 70, a Polícia Federal Criminal da Alemanha (Bundeskriminalamt), utiliza-se desse expediente, para, na época, tentar encontrar os terroristas do grupo de extrema esquerda chamado Rote Armee Fraktion (Facção do Exército Vermelho), onde foi descoberto que estes terroristas alugavam seus apartamentos usando nomes falsos, além de pagarem as faturas de energia elétrica em dinheiro, o que levou, posteriormente, a captura e prisão de vários integrantes do grupo. Portanto, apesar da maioria dos acadêmicos serem altamente céticos quanto ao estudo do perfil para a detecção de (grupos) terroristas, ainda assim a história tem-nos mostrado sua relativa eficácia no campo do contraterrorismo.

 

E quanto a possibilidade dos terroristas poderem ser desradicalizados, será possível essa hipótese? Em outras palavras, é possível a ideia de que indivíduos possam mudar suas atitudes e comportamento, deixando o terrorismo para trás? Eu vou usar a definição de John Horgan, que fez uma série de pesquisas neste campo. Ele considera como um processo social e psicológico pelo qual o compromisso de um indivíduo com o envolvimento de radicalização violenta é reduzido à medida em que ele não está mais em risco pelo envolvimento e engajamento nessa atividade violenta. Para o autor, a desradicalização também pode dar-se mediante política ou programa (de Governo, ou da sociedade civil), nesse sentido.

 

Um relatório (black report), de 2013, afirmou que a radicalização é o processo através do qual um indivíduo torna-se um extremista, sendo possível o contrário, ou seja, quando um grupo de extrema renuncia à violência, normalmente quando rejeita uma visão radical de mundo. Aqui, podemos citar três exemplos típicos: Daveed Gartenstein-Ross, que foi um financiador da al-Qaeda, e que agora é diretor da Fundação para a Defesa das Democracias; Norman Benotman, ex-membro da Libyan Islamic Fighting Group, e que tornou-se um analista sênior da Fundação Britânica Quilliam, inclusive escreveu uma carta aberta a Osama Bin Laden, em 2010, recomendando-o a reconsiderar seus objetivos e estratégias; e Henry Robinson, ex-membro do Exército Republicano Irlandês, que em 1990, foi o co-fundador da Fundação das Famílias Contra a Intimidação do Terror.

 

A primeira categoria de desradicalização se concentra na ideologia do indivíduo, usando aconselhamento psicológico ou religioso, para produzir uma mudança de mentalidade, de atitude, para ao fim alcançar a mudança de comportamento. Isso inclui medidas como o cessar-fogo ou o desmantelamento de armas. Na Europa há muitos exemplos de programas que são desradicalizadores destinado a extremistas de direita, especialmente nos países nórdicos, como Suécia, Dinamarca, Noruega, Alemanha e Holanda. Assim também ocorre na Indonésia e Colômbia, por exemplo. Ao meu ver, o termo correto seria desmobilização ou desengate, para conceituar o que os cientistas batizaram como desradicalização. No fundo, independentemente do nome dado ao fenômeno, a desradicalização é fato palpável hodiernamente.

 

Outro pressuposto contraterrorista é a decapitação de (líderes das) organizações terroristas. Mas qual o sentido que se deve dar ao termo (amplo ou literal)? Parece-nos clara a ideia de ser adotado o sentido literal ao termo, ou seja a “retirada da(os) cabeça(s) – dos líderes – das organizações terroristas. Aqui estão alguns exemplos de grupos que tenham sido confrontados com estas medidas especiais de combate ao terrorismo. A morte, em 2011, de Alfonso Cano, da organização terrorista FARC; em 2012, a prisão de Izaskun Lesaka, um dos principais líderes do ETA; a morte de Osama Bin Laden, em Abbottabad, no Paquistão (2011), principal líder da al- Qaeda; dentre tantos outros exemplos citáveis.

 

Muitas pessoas, portanto, creem ser muito eficaz a eliminação dos líderes de grupos terroristas, pois isso irá desestabilizar a organização, bem como enfraquecer o seu apelo. Deixem-me apresentar um estudo realizado por Jenna Jordan (2009), onde investigou 300 (trezentos) casos de decapitação de lideranças terroristas entre 1945 e 2004. Ela codificou a decapitação como um sucesso quando a organização terrorista ficou inativa por dois anos após o evento. Ela diz que os elementos-chaves na avaliação da eficácia desses atos são a idade do grupo; o tamanho do grupo; e do tipo de grupo. Segundo a pesquisadora, os grupos mais jovem e menores, são mais frequentemente desestabilizados do que os grupos mais velhos e maiores. Ainda, outro dado importante é o fato de que grupos terroristas de inspiração religiosa parecem ser menos resistentes à decapitação. Conclui, a autora, que a decapitação não é um pressuposto contraterrorista eficaz, vez que lista uma série de grupos que fortaleceram-se após o uso desta tática. Os efeitos colaterais são importantes nestas análises. Para resumir, existem uma grande variedade de razões para duvidar da eficácia da decapitação de organizações terroristas. O sucesso depende do tipo de organizações são atacadas, e principalmente o modus operandi que são utilizados.

 

Resta explorarmos a suposição de que o terrorismo não pode ser derrotado (grupal e pessoalmente). Independentemente de maiores discussões (normalmente demagógicas), se aceitássemos a hipótese de que o terrorismo não pode ser vencido, esta poderia levar-nos ao derrotismo, e consequentemente fortalecer a idéia de que o terrorismo constitui uma grande ameaça, e que podemos fazer muito pouco (parece-me a ideia central terrorista). Suscintamente, sabemos que segundo David Rapoport, ele nos mostra que há sucessivas ondas de terrorismo, e que levam algum tempo para cada uma dela ascender, para após desaparecer. Se assim o é, não há como sustentar que o terrorismo não pode ser derrotado, além dos pressupostos acima estudados.

 

Quanto ao último pressuposto contraterrorista, trata-se das tentativas de lidar com o terrorismo, ou como preferem alguns autores, sobre o gerenciamento do terrorismo. Para este pressuposto iremos tratá-lo através de uma abordagem holística, abrangente, ampla, compreensiva, ou grande estratégia (termo definido por Martha Crenshaw), como uma forma mais inclusiva, através da concepção que explica como um Estado pode ser adaptado para alcançar a segurança nacional através de técnicas contraterroristas mais humanistas.

 

A autora , muitas vezes refere-se a necessidade de lidar com a complexidade de natureza multidimensional do terrorismo e do contraterrorismo. Há um grande número de importantes políticos e conhecidas figuras públicas, que sublinharam a importância da necessidade de uma abordagem holística ou abrangente para lidar com o terrorismo. Exemplo relevante é o discurso do Secretário-geral das Organização das Nações Unidas, Ban Ki-moon, quando aconselha debate aberto sobre o combate ao terrorismo, afirmando que o sucesso no combate contra grupos como o Boko, Haram, Al Shabaab ou al-Qaeda, está baseado na exigência de esforços mais holísticos.

 

Assim também ocorreu com o primeiro-ministro do Paquistão, Nawaz Sharif, que salientou a importância de uma abordagem holística para lidar com o terrorismo. Numa cerimônia em Islamabad (fevereiro de 2013), Raja Pervez Ashraf disse entre outras coisas, temos que adotar uma abordagem holística para combater a ameaça terrorista. Apesar deste entusiasmo mundialmente demonstrado, a falta de dados estatísticos quanto ao sucesso (cientificamente comprovado) deste tipo de abordagem, os cientistas do mundo todo ficam reticentes em avaliá-lo como verdadeiro, preferindo tê-lo por parcialmente verdadeiro.

 

Derradeiramente concluo que para uma Nação obter qualquer forma de êxito frente às ameaças terroristas, somente dar-se-á através de intensivo incentivo ao estudo científico contraterrorista, o que infelizmente em nosso País, sequer é cogitado como possível realidade próxima.

 

BIBLIOGRAFIA:

Jones, Seth and Martin Libicki. How Terrorist Groups End: Implications for Countering Al Qa’ida | RAND, (RAND Corporation: 2008), pp. 1-45;

Jordan, Jenna. ‘When Heads Roll: Assessing the Effectiveness of Leadership Decapitation’, Security Studies vol. 18, no. 4 (2009), pp.719–755;

Price, Bryan C. ‘Targeting Top Terrorists: How Leadership Decapitation Contributes to Counterterrorism’,International Securityvol. 4, no. 36 (2012), pp. 9-46;

Bakker, Edwin, Christoph Paulussen and Eva Entenmann, Dealing with European Foreign Fighters in Syria: Governance Challenges and Legal Implications, ICCT Research Paper, December 2013;

Bjørgo, Tore and John Horgan (eds.). Leaving Terrorism Behind: Individual and Collective Disengagement, (Routledge: 2008);

Institute for Strategic Dialogue. The Role of Civil Society in Counterradicalisation and De-radicalisation: A Working Paper of the European Policy Planners’ Network on Countering Radicalisation and Polarisation (PPN), 2010, pp.1-25;

International Human Rights and Conflict Resolution Clinic at Stanford Law School and Global Justice Clinic at NYU School of Law. Living Under Drones: Death, Injury, and Trauma to Civilians from US Drone Practices in Pakistan, 2012, pp.1-165;

National Coordinator for Security and Counterterrorism [Ministry of Security & Justice, The Netherlands]. National counterterrorism strategy 2011-2015,2011, pp. 1-124.

1ADVOGADO CRIMINAL ESPECIALISTA EM DIREITO (PROCESSUAL) PENAL, CIBERCRIMES E CONTRATERRORISMO; CIENTISTA E ESTUDIOSO DO DIREITO (PROCESSUAL) PENALCV Lattes:http://lattes.cnpq.br/7382506870445908

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2. CIENTISTA COLABORADOR: Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC (Portal de e-governo – BRA) Glocal University Network (ITA) – Universiteit Leiden (HOL) – University of Maryland (EUA)

3. MEMBRO: Centro de Estudios de Justicia de las Américas (CEJA – AL); Instituto de Criminologia e Política Criminal (ICPC); Associação Brasileira dos Advogados Criminalistas (ABRACRIM); Associação dos Advogados Criminalistas do Paraná – (APACRIMI); International Criminal Law – (ICL – EUA); National Association of Criminal Defense Lawyers (EUA); The National Consortium for the Study of Terrorism and Resposes to Terrorism (START – EUA); e International Center to Counter-Terrorism – The hague (ICCT – HOL).

4. MEMBRO FUNDADOR: Associação Industrial e Comercial de Fogos de Artifícios do Paraná/PR; e AINCOFAPAR (Conselheiro Jurídico), Associação Bragantina de Poetas e Escritores

5. COLABORADOR DAS SEGUINTES MÍDIAS:www.arcos.org.brwww.conteudojuridico.com.brhttp://artigocientifico.uol.com.brhttp://www.academia.edu/http://pt.scribd.com/http://www.academicoo.com/, dentre outras.

6. AUTOR DOS SEGUINTES LIVROS CIENTÍFICOS: Fogos de Artifício e a Lei Penal (2012); Coletânea (2013); Propriedade Intelectual Livre (2013); e Cibercrime e Contraterrorismo (2014).

7. AUTOR DOS SEGUINTES LIVROS LITERÁRIOS: Valhala (1998); Nofretete (2001); e Copo Trincado (2002).

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